DO SENTIDO DADO AOS PASSOS, AOS PASSOS QUE NOS CONSENTIMOS DAR... JAMAIS OS MESMOS DEPOIS DE TRILHAR O DESERTO BRANCO

08
Fev 07
Pensamentos contraditórios e dois ou três sopros pela vida
por Gonçalo Reis

Pier Paolo Pasolini, esse poeta e cineasta sublime, esse ícone da esquerda, esse herói anti-sistema, escreveu nos anos setenta uma série dramática de textos atacando frontalmente o aborto. Não era um conservador, não era da Igreja, não era um tradicionalista. Estava no campo oposto. Mas era um homem de cultura e que gostava exageradamente da vida, da vida toda, de todas as vidas, desde o princípio. Disse: "Estou porém traumatizado pela legalização do aborto, porque a considero, como muitos, uma legalização do homicídio. Nos sonhos e no comportamento quotidiano - coisa comum a todos os homens - eu vivo a minha vida pré-natal, a minha feliz imersão nas águas maternas: sei que já lá eu existia. Limito-me a dizer isto porque, a propósito do aborto, tenho coisas mais urgentes a dizer. Que a vida é sagrada é óbvio; é um princípio ainda mais forte do que qualquer princípio da democracia, e é inútil repeti-lo."

Algo de maravilhoso une os defensores do "sim" e do "não": vivem. Vivem porque os pais decidiram não abortar.

Alguns promotores do "não" escusavam de se basear em argumentos tecnocratas, tais como o envelhecimento da população e o custo dos abortos. É evidente que se deve fomentar a natalidade, mas aí está um outro debate. Que diabo, a defesa da vida, da vida individual e irrepetível, vale por si mesma. Não é conjuntural. Poderíamos atravessar um ambiente de forte crescimento populacional ou de superavit orçamental, seria indiferente. O combate pela vida não deveria assentar em razões de bem-estar da sociedade. Tal seria cair num insuportável relativismo. Trata-se antes de algo terrivelmente mais absoluto e delicado: proteger os que já vivem mas ainda não nasceram. Um a um.

"Uma vida não vale nada, mas nada vale uma vida", André Malraux.

A vitória do "sim" não resultaria no que alguns dos seus arautos esperam: no fim da questão. O aborto clandestino continuaria a ser uma realidade, pois muitas mães, sobretudo adolescentes, evitariam os estabelecimentos públicos e não teriam disponibilidade para os serviços privados. Os julgamentos em tribunal continuariam a ocorrer nas situações de aborto após as dez semanas. O "sim" não seria uma pedra sobre o assunto, nem uma salvação para os dramas (indiscutíveis) do aborto.

Há múltiplas maneiras de respeitar o ser humano, condenando e combatendo o aborto através de um enquadramento legal que exclua a prisão como pena última. Caminhos heterodoxos, porventura: mais compreensivos do que a situação actual; mais prudentes do que a legalização pura e dura. Estas hipóteses serão possíveis se o "não" ganhar. Aí, a partir da não-liberalização, a partir da valorização inequívoca da vida, poder-se-á pensar e construir soluções equilibradas que afastem o aborto sem justificação.

"Por opção da mulher", dita a pergunta a referendar. Podia ao invés trazer a palavra "mãe". É sempre uma mãe em potência a confrontar-se com a hipótese de aborto. Talvez valesse a pena lembrá-lo.

E o pai, ausente desta escolha, se ganhasse o "sim"? E se a mãe quiser abortar e o pai não? E vice-versa? O pai é tanto pai como a mãe é mãe. Que raio de conceito de família subjaz a esta transferência total de responsabilidade, a esta opção pelo unilateral? Que horror de mundo, a sós, sem ponderação partilhada, sem diálogo, pretende o "sim" oferecer?

Um Estado realizando e promovendo abortos ao mesmo tempo que não realiza, não promove, não apoia devidamente tratamentos de infertilidade para os casais que sonham em ter filhos e não conseguem? Seria essa a realidade do "sim". Triste. Injusta. Gritante.

Os valores da solidariedade, do respeito pela dignidade humana, da inclusão, da harmonização dos interesses, da oportunidade, da defesa do mais fraco (tão fraco que ainda não pode escolher, apenas ser escolhido) - são descartáveis, conforme a fase da vida? E se os esquecermos durante a vida na barriga da mãe, logo no princípio, quanto tempo tardará até que os esqueçamos no fim da vida? Seria imaginável "seleccionar" as vidas e as fases da vida a apoiar?

A modernidade estará sempre do lado da esperança, da vitalidade, do humanismo, da não desistência, da confiança num mundo melhor.

Outra vez Pasolini: "Não há nenhuma boa razão prática que justifique a supressão de um ser humano, mesmo que seja nos primeiros estádios da sua evolução. Eu sei que em nenhum outro fenómeno da existência há tão furiosa, tão total e essencial vontade de vida como no feto. A sua ânsia de realizar as suas potencialidades, percorrendo fulminantemente a história do género humano, tem algo de irresistível e por isso de absoluto e de jubiloso. Mesmo que depois nasça um imbecil".
publicado por fpg às 09:43

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