DO SENTIDO DADO AOS PASSOS, AOS PASSOS QUE NOS CONSENTIMOS DAR... JAMAIS OS MESMOS DEPOIS DE TRILHAR O DESERTO BRANCO

22
Out 08

Será possível?

Não sei o que se passa comigo ou, melhor, sei bem demais, mas é de tal modo insólito que me sinto atónita...

Será que podemos apaixonar-nos (com um Amor daqueles que nos perturba o sono, nos faz felizes, nos faz sonhar, nos dá vontade de reviver momentos inesquecíveis) por um deserto?!

Não, não fiquei apanhada pelo clima porque o calor não era abrasador...

Será que nas várias formas de que a Natureza se reveste também podemos ter uma alma-gémea?

 

 

Gosto muito do mar, fiquei deslumbrada, extasiada mesmo, com algumas das paisagens do Tibet, mas o Deserto Branco invadiu-me o coração e não deixou nenhum cantinho vazio. E nem estamos em fase de cheias do Nilo...

Só sinto que tenho de lá voltar.

Não me canso de olhar as fotografias que como que trazem mel para dentro de mim.

Tenho saudades daquela comunhão silenciosa, daquelas dezenas de quilómetros de deslumbramento em que, a cada passo, o olhar descobria uma nova beleza.

 

 

Tudo o que recordo faz com que a respiração no meu peito nunca mais tenha sido igual desde o dia em que parti.

Tenho saudades.

Tantas que provocam dor.

Só quem lá esteve poderá compreender o que sinto.

*Théodore Monod, um homem que viveu o Deserto como poucos, testemunhou em "A Esmeralda dos Garamantes"/L' Émeraude des Garamanthes:

 

 "Não, não é agradável [...] os salpicos da regurgitação do camelo, a comichão da carraça nas calças, a água salobra, a comida com areia, as noites ventosas. Os desconfortos desta vida são muitos.[...]
A paragem do meio-dia é tórrida? Este vento diabólico? [...] Não te queixes. Suporta. Tem paciência. Cerra os dentes. A vingança virá mais cedo ou mais tarde.
De resto conheço-te bem. Quando ela vier, essa vingança tão esperada, quando te deitares, saciado, com iguarias delicadas que não te estalaram sob os dentes, saciado com uma água incolor, sem pêlos de bode, numa cama de sibarita, sob um tecto, no quente, então, em vez de saboreares de forma duradoura a tua felicidade, muito rapidamente, assim que o grande cansaço das tuas caminhadas solitárias estiver esquecido, então começas a sentir falta das tuas rudes etapas, dos teus pés escalavrados, dos teus lábios gretados, dos teus sonos enroscado sob as estrelas.

E, na primeira oportunidade, tal como eu, voltas a partir..."


 

Non, ce n' est pas agréable [...] les éclaboussures de régurgitat camelin, le rostre de la tique dans ta culotte, l' eau saumâtre, les gruaux sablés, les nuits venteuses. Les désagréments de cette vie sont copieux. [...]
La halte méridienne est torride? Ce vent diabolique? [...] Ne te plains pas. Supporte. Patiente. Serre les dents. La revanche, tôt ou tard, viendra.
D' ailleurs, je te connais bien. Quand elle sera venue, cette vengeance tant esperée, quand tu coucheras, rassasié de mets délicats qui n' auront pas craqué sous la dent, désaltéré d' une eau incolore, sans poils de bouc, dans un lit de sybarite, sous un toit, au chaud, alors, au lieu de savourer durablement cette félicité, très vite, dès que la grosse fatigue de tes marches solitaires sera oubliée, alors tu te prendras à regretter tes rudes étapes, tes pieds écorchés, tes lèvres éclatées, tes sommeils recroquevillé sous les étoiles.
Et, à la premiére occasion, comme moi, tu repartiras...

 

 
 
E eu nem tive muito frio, não fiquei com os pés em ferida...
Tenho é a alma em ferida.
Não queria ter saído de lá...
 
 

 

*Tirado de Mochila às Costas 


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