DO SENTIDO DADO AOS PASSOS, AOS PASSOS QUE NOS CONSENTIMOS DAR... JAMAIS OS MESMOS DEPOIS DE TRILHAR O DESERTO BRANCO

20
Jan 09

Para os que se consideram mentalmente sãos, as óbvias manifestações de demência de familiares ou amigos são preocupantes.

Ora apesar da minha absoluta e total ignorância científica sobre a matéria vou referir-me a casos práticos e analisá-los do ponto de vista dos doentes.

Lembro-me de, há uns anos atrás, nos rirmos bastante porque a mãe/avó de uns amigos, que ficou senil, "partiu" para um mundo de contos de fadas onde era constantemente convidada por príncipes para ir a festas e bailes. Normalmente quando os netos a visitavam no lar onde vivia encontravam-na sempre bem disposta e com coisas boas para lhes contar.

Não é preferível viver assim?

Se a avó Fanfana não tivesse feito esta fuga para a frente provavelmente, com o pelo na venta que tinha, teria sofrido imenso a viver no lar...

Ou quiçá, talvez o facto de ter ido para o lar a tenha feito partir para o mundo dos contos de fadas...

Na minha família estamos a lidar com uma situação de fuga mas para o passado.

A tia Nini perdeu a filha única há cerca de 20 anos; esta morreu com 40 anos, solteira, depois de ter vivido toda a vida com os pais. O tio Luis morreu há 3 anos.

Resultado: depois de 60 anos de casamento, de ter vivido a vida toda para o marido e para a única filha a minha tia vê-se sozinha, sem mais filhos, sem netos, em Coimbra, cidade que não quer deixar de maneira nenhuma.

Depois da morte da minha prima habituei-me a ver a minha tia chorar com bastante frequência. Foi ferida que jamais sarou.

Após a morte do meu tio pouco estive com ela, pois só voltei a Portugal duas vezes e a sua cabeça já começava a apresentar traços de confusão, mas nada de muito significativo (lapsos de memória e trocar os nomes das pessoas). A grande fuga começou há cerca de um ano e meio.

A tia Nini partiu para o passado, para o tempo em que os meus avós eram vivos, em que as tias, irmãs do avô, ainda vivam na Fopa - Penela, em que o meu pai ainda era solteiro!

Quando está nessa época a tia não chora. Preocupa-se com eles mas não chora. Só chora quando volta ao presente.

Por isso prefiro que ela esteja no seu mundo feliz do passado.

Mesmo que isso signifique que ela não volte a reconhecer-me.

Cansei-me de a ver chorar no fim do Séc. XX e no Séc. XXI.

Estes dois casos que referi são pouco problemáticos em termos de tratamento, apesar de no caso da minha tia já não ser possível viver sozinha, pois tal constituíria um sério risco para a sua segurança e saúde.

 


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